Pesquisa
Elo entre dimensões de sintomas em jovens vem de quem quase não os tem
Estudo com 11.868 jovens do ABCD: a associação entre internalização e externalização é forte entre quase assintomáticos e fraca nos níveis clínicos.

O que saiu
A Nature Mental Health publicou em 2026-10-01 um estudo que contesta uma leitura comum na pesquisa em psicopatologia: a de que a correlação entre grandes dimensões de sintomas, como internalização (ansiedade, depressão) e externalização (problemas de conduta, impulsividade), mostra comorbidade. Analisando quatro ondas do estudo americano Adolescent Brain Cognitive Development (ABCD), com 11.868 jovens, os autores concluem que essa correlação é puxada sobretudo por quem quase não tem sintomas, fenômeno que chamam de nomorbidade, e não por quem tem vários quadros ao mesmo tempo.
O que o estudo diz
O ABCD acompanha anualmente crianças que entraram no estudo com 9 e 10 anos, recrutadas em 21 centros dos Estados Unidos; 48% da amostra é do sexo feminino. Os sintomas foram medidos pelo Child Behavior Checklist (CBCL), questionário respondido pelos cuidadores. Na primeira onda, 81% dos jovens tinham níveis não clínicos de internalização e de externalização, e só 5,3% tinham alguma combinação de nível de risco ou clínico nas duas dimensões. Em vez de supor uma única reta ligando as dimensões, como faz a regressão linear usual, a equipe usou modelos bayesianos de ponto de mudança, que permitem que a força da associação mude ao longo da escala de gravidade.
O ponto de mudança apareceu muito cedo, por volta de dois ou três sintomas de internalização relatados. Antes dele, cada ponto a mais em internalização estava associado a 32% a mais em externalização; depois dele, a apenas 7% a mais. O padrão se repetiu quando a direção da análise foi invertida, nas quatro ondas e nas associações com problemas de atenção e problemas de pensamento. Em análise de sensibilidade com os sintomas dos próprios cuidadores, medidos por um questionário de autorrelato para adultos, o resultado foi parecido.
Trata-se de uma análise observacional de dados de coorte, que descreve associações estatísticas e não testa mecanismos. Os autores reconhecem que a amostra, por ser comunitária e com distribuição muito concentrada em níveis baixos de sintomas, pode representar mal a psicopatologia grave, embora 2,2% dos jovens (257) estivessem em nível clínico nas duas dimensões. Eles também trabalharam com somas de escores, sem análise fatorial, e lembram que a amostra do ABCD não é representativa do país. A leitura de que o chamado fator p seria pouco relevante nos níveis clínicos é apresentada pelos próprios autores como uma interpretação a ser testada em amostras clínicas.