Clínica
Menopausa precoce abala identidade e planos de vida, aponta revisão
Revisão de 12 estudos descreve como a insuficiência ovariana prematura e a menopausa precoce afetam imagem corporal, pertencimento e planos de ter filhos.

O que saiu
O BPS Research Digest, publicação de divulgação da Sociedade Britânica de Psicologia, apresentou em 2026-10-05 uma revisão de escopo publicada no British Journal of Health Psychology sobre como a insuficiência ovariana prematura (IOP) e a menopausa precoce afetam o autoconceito das mulheres. Na IOP, os ovários deixam de funcionar como o esperado antes dos 40 anos; a menopausa costuma acontecer entre os 45 e os 55 anos. Os efeitos físicos das duas condições são bem documentados, mas o impacto sobre a forma como a mulher se vê e imagina o futuro é bem menos conhecido.
O que o estudo diz
A equipe identificou 12 estudos, com entrevistas e questionários respondidos por mulheres de 19 a 65 anos. Sete trataram apenas da IOP e cinco incluíram IOP e menopausa precoce. A maior parte das participantes era branca e vivia em países ocidentais.
O achado mais recorrente foi um descompasso entre a idade e o corpo. Dois terços dos estudos registraram mudanças na imagem corporal, como sentir-se menos jovem ou menos atraente, e metade captou a sensação de ser jovem num corpo que parecia envelhecido antes da hora. Algumas mulheres passaram a desconfiar do próprio corpo, sobretudo quando seus relatos eram desconsiderados por outras pessoas. O descompasso apareceu também no lugar social: parte delas se sentia distante das pessoas da mesma idade sem se identificar com mulheres mais velhas, e outras descreveram mudanças no sentido de feminilidade ou na identidade sexual.
Mais da metade dos estudos descreveu ruptura nos planos de vida, em especial em relação a ter filhos. Mesmo mulheres que não pretendiam ser mães sofreram com a perda dessa possibilidade, numa experiência descrita como luto. Com o tempo, algumas reorganizaram os planos e construíram outras formas de entender quem eram. A vivência variou com a idade de início, a gravidade dos sintomas e a resposta de parceiros, família e profissionais de saúde. Mulheres que davam mais peso a expectativas convencionais de feminilidade tendiam a relatar mais perda, e questionar essas expectativas aparecia ligado a uma adaptação mais fácil.
Os autores sugerem que esse descompasso entre o corpo esperado para uma fase da vida e o corpo vivido pode ser central no efeito das duas condições sobre o autoconceito. É uma interpretação a partir dos relatos, não um resultado medido. A própria revisão reconhece limitações: poucos estudos atenderam aos critérios, a maioria envolveu mulheres brancas de países ocidentais, o que deixa em aberto a generalização para outras populações, e os trabalhos investigaram o autoconceito de maneiras diferentes, o que dificulta conclusões firmes.