Pesquisa
Religiosidade persiste no uso de drogas por quem vive na rua
Estudo com 40 pessoas no Brasil e em Portugal contesta a ideia de falta de Deus no uso de drogas e descreve a fé como amparo e possível fator de risco.

O que saiu
O Jornal da USP publicou em 2026-10-05 uma reportagem sobre um estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em parceria com a USP, que analisou a religiosidade de pessoas com dependência de drogas em situação de rua no Brasil e em Portugal. A coleta de dados fez parte de um doutorado no Instituto de Psicologia da USP, e o artigo saiu na revista Nursing & Health Sciences. O resultado contraria a crença popular de que o transtorno por uso de substâncias seria sinal de ausência da dimensão religiosa, a chamada falta de Deus: a religiosidade se manteve durante o período de uso e, em alguns casos, aumentou.
O que o estudo diz
O trabalho é um estudo qualitativo e transcultural, feito com entrevistas com 40 pessoas, em sua maioria homens, para entender a trajetória de uso de drogas e se, e como, a religião fez parte dela. A pesquisadora também levantou a religiosidade e o consumo de drogas nas famílias dos participantes. Nas entrevistas brasileiras, as trajetórias, em especial as das mulheres, incluíam muita violência sexual desde a infância.
O conceito central é o de proteção subjetiva: a sensação de estar protegido por uma divindade das adversidades e das consequências do uso. A fé aparecia como amparo e companhia. Nas entrevistas, porém, muitos relataram a certeza de que não pegariam doenças ao compartilhar objetos de consumo nem teriam overdose. Daí a hipótese, ainda a ser investigada em outros estudos, de que essa proteção possa funcionar também como fator de risco para a continuidade do uso. Os participantes também relataram desconforto com instituições religiosas, e parte se dizia inadequada para frequentar cultos e igrejas.
Os dois grupos estavam em contextos de tratamento diferentes, o que ajuda a ler as respostas.
Segundo a pesquisadora, os brasileiros eram menos críticos às instituições de tratamento e se sentiam falhos e culpados quando não avançavam; também relataram ter participado de rituais de religiões que não eram as suas dentro das comunidades terapêuticas. Os portugueses questionavam mais os modelos de tratamento e as crenças populares sobre drogas. A reportagem não detalha limitações do estudo; uma delas é que os grupos diferem ao mesmo tempo em país, religião predominante, substâncias e modelo de tratamento, o que impede atribuir as diferenças a um único fator.