Clínica
Telas e depressão na juventude: estudo com gêmeos atenua a associação
Coorte sueca com 21.797 gêmeos liga o uso intenso de telas a depressão e ansiedade, mas a associação perde força quando se compara irmão com irmão.

O que saiu
A Nature Human Behaviour publicou em 2026-10-08 um estudo sueco que acompanhou 21.797 gêmeos da infância ao início da vida adulta para testar se o uso recreativo de telas (televisão, vídeo, jogos, chat e navegação) está ligado a sintomas de depressão e ansiedade. O uso intenso aparece associado a mais sintomas e a mais diagnósticos clínicos. Quando a comparação é feita dentro dos pares de gêmeos, porém, a associação perde força e deixa de ser estatisticamente significativa depois da correção para múltiplos testes.
O que o estudo diz
Os dados vêm do Child and Adolescent Twin Study in Sweden (CATSS), uma coorte longitudinal com questionários aos 9, 15, 18 e 24 anos, ligada a registros nacionais de diagnósticos e de medicamentos dispensados. O desenho de controle por cogêmeo compara o gêmeo mais exposto às telas com o irmão menos exposto, o que controla fatores genéticos e de ambiente familiar que os dois dividem.
Na amostra completa, o uso intenso de atividades interativas (jogos, chat e internet por mais de 6 horas por dia) aos 15 anos esteve associado a risco maior de diagnóstico clínico de depressão ou ansiedade até os 28 anos, em comparação com quem usava até 2 horas por dia. A razão de risco ajustada foi de 3,37 para o uso nos dias de semana e de 2,30 nos fins de semana. Dentro dos pares de gêmeos, essas estimativas caíram de 57% a 59%, e a dos dias de semana ficou em 1,65, sem significância após a correção.
Assistir televisão, vídeo e DVD não mostrou associação significativa com os desfechos clínicos. Nas análises aos 15 e 18 anos, as associações com sintomas foram mais fortes entre as meninas. Houve também uma associação no sentido inverso, pequena: mais sintomas aos 15 anos se associaram a um leve aumento do uso interativo aos 18 (razão de chances de 1,04).
Os autores dizem que os resultados continuam correlacionais. As estimativas dentro dos pares nem sempre chegaram a zero, o que, para eles, pode sugerir um efeito residual, hipótese que pedem para replicar em outras amostras de gêmeos. Entre as limitações reconhecidas estão a coleta iniciada em 2004, antes da difusão do smartphone e das redes sociais, a medida grosseira do tempo de tela, que não capta o que se faz nem por que se faz, a divisão aproximada entre uso interativo e passivo, a queda da taxa de resposta ao longo do tempo e o número limitado de pares discordantes. O estudo não foi pré-registrado.