Pesquisa
Trabalho estigmatizado deixa marca na carreira seguinte, sugere estudo
Três estudos associam ter tido um emprego estigmatizado, como cobrança ou presídio, a salário menor e mais tempo de desemprego nos trabalhos seguintes.

O que saiu
O BPS Research Digest, da Sociedade Britânica de Psicologia, publicou em 2026-10-12 o resumo de uma pesquisa do Journal of Applied Psychology sobre o chamado trabalho sujo: ocupações estigmatizadas por razões físicas, sociais ou morais, como controle de pragas, trabalho em presídios, cassinos e cobrança de dívidas. Em três estudos, os autores investigaram se ter um emprego desse tipo no histórico está associado ao sucesso profissional depois da troca de trabalho. A conclusão geral é que o estigma tende a persistir.
O que o estudo diz
O primeiro estudo analisou uma grande base de dados dos Estados Unidos, que acompanhou 7.881 pessoas ao longo de 47.477 trocas de emprego. Quem tinha trabalho estigmatizado no histórico passou a ganhar cerca de 7% menos nos empregos seguintes, foi para ocupações de menor prestígio, teve chances 21% maiores de ficar sem emprego entre um trabalho e outro e passou, em média, 4,5 semanas a mais desempregado. As associações se mantiveram depois do ajuste por renda e prestígio anteriores, tempo de carreira e mudança de ocupação.
O segundo estudo foi um experimento com cerca de 300 gestores americanos, que avaliaram currículos fictícios comparáveis, diferentes só no emprego anterior (administrador de imóveis, controle de pragas, agente penitenciário ou gerente de cassino). Os candidatos com trabalho estigmatizado foram vistos como menos adequados à vaga, tiveram menor chance de ser chamados para entrevista e receberam propostas salariais quase US$ 1.900 menores, em média. Atitudes negativas em relação a esse tipo de trabalho explicaram em parte as diferenças de adequação e de convite para entrevista, mas não a diferença salarial.
O terceiro estudo, qualitativo, entrevistou 38 ex-trabalhadores na China, entre eles limpadores de esgoto e cobradores de dívidas. Mais da metade disse conhecer os estereótipos negativos sobre a antiga ocupação, e cerca de um terço relatou vergonha ou perda do respeito por si. Muitos adaptaram a busca de emprego: alguns tiraram o cargo do currículo, ex-cobradores se apresentaram como atendentes, e outros apresentaram o trabalho difícil como prova de paciência e resiliência.
O próprio BPS aponta as limitações. Quem entra nesses empregos pode diferir dos demais trabalhadores em aspectos que também pesam na carreira, então a base americana não permite saber quanto da desvantagem vem do trabalho em si. O experimento isola o efeito do histórico, mas avaliar um candidato fictício é diferente de contratar de verdade. E a amostra pequena das entrevistas deixa em aberto como a experiência varia entre ocupações e culturas.