Clínica
Campanha eleitoral e saúde mental: ansiedade, apatia e pânico
Artigo no The Conversation Brasil descreve como disputas eleitorais polarizadas se associam a ansiedade, insônia, apatia e crises de pânico.

O que saiu
O The Conversation Brasil publicou em 2026-10-14, em plena campanha de 2026, um artigo de análise assinado por um professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O texto descreve como eleições marcadas por polarização, hostilidade e incerteza podem se refletir na saúde mental: ansiedade antecipatória, alterações de sono, apetite e libido, apatia e, em pessoas predispostas, ataques de pânico. Não é um estudo novo, e sim uma revisão comentada de quadros clínicos e de duas pesquisas feitas nos Estados Unidos.
O que o artigo diz
O autor descreve a ansiedade antecipatória como apreensão persistente diante de um acontecimento futuro visto como ameaçador. Em eleições muito disputadas, ela pode virar hipervigilância: consulta compulsiva de pesquisas, debates e redes sociais, dificuldade de concentração, irritabilidade e fadiga. A insônia inicial, com dificuldade de adormecer por causa dos pensamentos sobre o resultado, recebe atenção especial no texto, e o texto lembra o ciclo em que a privação de sono piora a regulação emocional e a ansiedade piora o sono. Há também quem reaja pelo lado oposto, com desinteresse, afastamento das conversas e sensação de impotência, uma apatia que o autor separa da depressão clínica quando faltam anedonia, perda persistente de motivação e prejuízo funcional.
Para sustentar a relação, o artigo cita dois trabalhos sobre a eleição presidencial americana de 2020. O primeiro, publicado na revista Economics & Human Biology com dados populacionais, encontrou aumento progressivo de sintomas moderados a graves de ansiedade e depressão nas semanas anteriores à votação e queda depois do pleito. O segundo acompanhou 543 participantes, dentro e fora dos Estados Unidos, e registrou menor duração e eficiência do sono, com mais estresse e emoções negativas no período. Os dois desenhos são observacionais, e o próprio autor diz que os dados mostram associação e não permitem atribuir todos os sintomas à eleição.
O texto também é franco sobre o que falta. Segundo o autor, a literatura ainda não permite estimar a frequência de ataques de pânico, mudanças de libido ou de apetite atribuíveis especificamente às disputas eleitorais; essas manifestações são plausíveis no contexto de estresse, mas pedem estudos epidemiológicos próprios. Ele lembra ainda que um ataque de pânico isolado não equivale a transtorno de pânico.