Pesquisa
Coorte da Unifesp busca sinais do Alzheimer antes dos sintomas
Estudo Bioaz vai acompanhar 500 brasileiros com queixa de memória e discute como devolver resultados de biomarcadores a quem ainda não tem demência.

O que saiu
A revista Pesquisa FAPESP publicou em 2026-10-26 uma reportagem sobre o Estudo Brasileiro em Doença de Alzheimer (Bioaz), coorte montada pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) com apoio de um projeto temático da FAPESP. O objetivo é encontrar biomarcadores que indiquem quem vai desenvolver Alzheimer entre pessoas que já se queixam de memória, mas ainda não têm demência. A reportagem também trata do dilema de revelar um sinal biológico da doença a quem ainda não tem sintomas.
O que o estudo diz
O desenho é de coorte, com acompanhamento ao longo do tempo: a proposta é seguir por cinco anos 500 brasileiros a partir de 55 anos. A avaliação clínica combina questionário de autorrelato (escolaridade, renda, exposição a violência e poluição, entre outros itens), entrevista com especialistas e avaliações de neuropsicologia, fonoaudiologia e nutrição. Na parte biológica entram análises de plasma, tomografia de coerência óptica da retina, audiometria, neuroimagem e, em breve, coleta de líquor. O projeto envolve cinco departamentos da Unifesp e mais de 100 pesquisadores, com colaboração da USP, da UFRGS e da UFSCar.
A justificativa é a população estudada. Quase todas as grandes coortes de Alzheimer do mundo foram construídas com pessoas brancas, e a genética influencia os biomarcadores. Para representar a cidade de São Paulo, segundo o pesquisador responsável, a amostra precisa ter cerca de 10% de pessoas pretas e um terço de pardas, perto do que mostra o Censo Demográfico 2022 do IBGE. Esse é o maior obstáculo até agora: quem mais se voluntaria são pessoas brancas, em maioria mulheres, de alta escolaridade. O recrutamento está em pausa enquanto o grupo redesenha a estratégia, com aproximação de lideranças comunitárias, escolas e igrejas.
Os números iniciais são preliminares. A coorte reúne cerca de 125 participantes no primeiro ano, e análises exploratórias do plasma, feitas na UFRGS, sugerem que aproximadamente 25% da amostra têm marcadores compatíveis com Alzheimer, como a pTau217 plasmática. Uma análise proteômica, também preliminar, encontrou associações entre proteínas ligadas a inflamação, ao sistema complemento e ao metabolismo de lipídios, o desempenho em testes cognitivos e os níveis de pTau. Os próprios pesquisadores dizem que esses sinais precisam ser confirmados em mais participantes.