Pesquisa
Fentanil é detectado em usuários de canabinoides sintéticos em SP
Estudo da FMUSP com 65 pessoas atendidas em serviços da capital paulista achou o opioide na saliva de 32%, sem que elas relatassem o uso.

O que saiu
Pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) encontraram fentanil na saliva de 32% dos participantes de um estudo com usuários de canabinoides sintéticos, drogas conhecidas como K2 ou K9. As pessoas avaliadas eram atendidas em serviços de tratamento e de atenção psicossocial da capital paulista. O artigo saiu na revista Drug and Alcohol Review, e o Jornal da USP divulgou o resultado em 2026-10-26.
O que o estudo diz
O estudo é observacional e reuniu 65 voluntários que relataram ter consumido canabinoides sintéticos nos quatro dias anteriores às entrevistas. A equipe colheu fluido oral com um dispositivo específico, e a análise foi feita pelo Laboratório de Toxicologia da FMUSP. O fentanil é um opioide sintético com poder analgésico dezenas de vezes maior que o da morfina. Tem uso legítimo na medicina e na anestesia, mas no mercado ilícito sua presença não declarada traz risco de depressão respiratória acentuada e de overdose fatal, sobretudo para quem não tem tolerância a opioides.
O ponto central é que os participantes que testaram positivo não relataram uso de fentanil. Esse grupo apresentou com mais frequência sintomas graves, como náuseas, vômitos e dores musculares intensas. A presença não intencional do opioide também foi mais frequente entre pessoas em situação de rua e entre quem tinha histórico prolongado de uso de drogas sintéticas. Como o estudo é observacional, essas diferenças são associações, e o desenho não permite afirmar causa.
A própria pesquisa reconhece uma limitação importante: não é possível determinar a origem da exposição. O fentanil pode ter chegado misturado a outras drogas, por uso de opioides que os participantes não relataram ou por outras vias. Os resultados vêm de 65 pessoas ligadas a serviços de uma só cidade.
O texto de divulgação lembra que o Brasil manteve, historicamente, baixos índices de consumo não médico de opioides em comparação com países da América do Norte e da Europa, e diz que os achados indicam uma possível mudança no cenário das substâncias ilícitas em circulação no país. É uma interpretação feita a partir de uma amostra, não uma medição de tendência. Os pesquisadores defendem sistemas contínuos de vigilância toxicológica e de checagem de substâncias.